O Governo do Distrito Federal (GDF) decidiu apostar em uma estratégia agressiva de mercado para levantar fundos: a securitização de sua dívida ativa, estimada em R$ 52 bilhões. Anunciada em 22 de abril de 2026, a medida visa transformar impostos e multas não pagos em dinheiro vivo imediato, vendendo esses créditos para fundos de investimento. Na prática, o governo prefere receber agora um valor menor do que esperar anos por cobranças judiciais que nem sempre dão resultado.
Aqui está o ponto central: o governo não vai cobrar essas dívidas diretamente. Em vez disso, ele transferirá o direito de receber esses valores para entidades privadas. Para atrair investidores, o GDF aceita um "deságio", ou seja, um desconto que pode chegar a 50% do valor total da dívida. É como se o governo vendesse um cheque de 100 reais por 50 reais hoje, para não ter que esperar o devedor pagar daqui a cinco anos.
A engenharia por trás da venda de créditos
A operação não surgiu do nada. Ela é o resultado de um caminho legislativo que começou com a aprovação do Projeto de Lei nº 1.455/2024 pela Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) em 10 de dezembro de 2024. Posteriormente, a Lei nº 7.638 foi sancionada, culminando no Decreto nº 46.857, emitido em 12 de fevereiro de 2025 por Ibaneis Rocha, Governador do Distrito Federal.
O decreto autoriza a venda de créditos tributários e não tributários, mas com uma trava importante conquistada por parlamentares como Chico Vigilante (PT): apenas créditos já inscritos em dívida ativa podem ser comercializados. Isso evita que o governo venda dívidas "novas" que ainda poderiam ser cobradas integralmente. A operação será conduzida pelo Banco de Brasília (BRB), que atuará como a ponte entre o governo e os fundos regulamentados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Para quem olha de fora, a conta parece simples, mas o risco é transferido. Uma vez que o crédito é vendido, o GDF fica livre de qualquer responsabilidade. Se o devedor não pagar, quem assume o prejuízo é o fundo de investimento, não o governo. O contribuinte, por sua vez, continua devendo o valor total, agora para o novo detentor do título.
Para onde vai o dinheiro?
O governo não pretende usar esse montante apenas para tapar buracos orçamentários. Existe uma regra rígida de destino para os recursos arrecadados com a venda dos ativos:
- 50% para a Previdência Social: Metade do capital deve ser obrigatoriamente destinada a cobrir despesas previdenciárias do DF.
- 50% para Infraestrutura: A outra metade será investida em obras urbanas, com foco especial em regiões mais carentes da capital.
O secretário de Economia, Ney Ferraz, reforçou que a meta é captar recursos com "segurança jurídica" para garantir melhorias na vida da população. Interessante notar que 75% dessa dívida bilionária vem do ICMS, o que significa que a maior parte dos devedores são empresários. Para tentar reduzir a dependência da securitização, o GDF também abriu frentes de negociação direta para que esses empresários regularizem sua situação.
O fator BRB e a crise dos "créditos podres"
Não se pode falar dessa operação sem mencionar o contexto delicado do BRB. O banco, controlado pelo governo, atravessa a crise mais severa de sua história. O estopim foi uma série de transações malsucedidas com o Banco Master, que estão sob investigação por suspeitas de fraudes.
O GDF agora se vê na missão de salvar o balanço patrimonial do banco. A securitização da dívida ativa é apenas uma peça de um tabuleiro maior de recuperação, que inclui:
- A venda de R$ 15 bilhões em ativos do Banco Master para o grupo Quadra Capital.
- Um empréstimo de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantor de Créditos (FGC).
- A emissão de até R$ 8,8 bilhões em novas ações na Bolsa de Valores.
- A criação de um fundo imobiliário com lotes públicos cedidos ao banco.
Turns out, a urgência em levantar caixa via dívida ativa pode estar ligada não apenas a obras em bairros pobres, mas também à necessidade desesperada de dar liquidez ao sistema financeiro do DF e estabilizar o BRB.
Impactos e Visões Contrastantes
Enquanto o governo vê a medida como uma "modernização da gestão financeira", críticos na CLDF, como o deputado Gabriel Magno (PT), alertaram que a pressa na votação impediu discussões mais profundas sobre os detalhes da operação. O risco apontado é o deságio excessivo: vender metade do valor de um crédito pode ser visto por alguns como uma renúncia indireta de receita.
Por outro lado, a liquidez imediata permite que o governo execute obras que estariam paradas por falta de verba. Em um cenário onde a justiça brasileira leva anos para processar execuções fiscais, a securitização transforma um "ativo morto" (a dívida que ninguém paga) em investimento real na cidade.
Perguntas Frequentes
O que acontece com quem deve ao governo se a dívida for vendida?
O devedor continua com a obrigação de pagar o valor total da dívida, acrescido de juros. A única mudança é que ele não pagará mais ao GDF, mas sim ao fundo de investimento ou empresa privada que comprou aquele crédito. A cobrança continua sendo legal e rigorosa.
Por que o governo aceita vender a dívida com até 50% de desconto?
Isso ocorre devido ao risco e ao tempo. Cobrar dívidas na justiça é lento e caro. O investidor assume o risco de nunca receber o dinheiro e, em troca disso, exige um desconto (deságio). Para o GDF, é preferível ter 50% do valor agora do que 100% em um futuro incerto ou nunca receber.
Qual a relação dessa medida com a crise do BRB?
O BRB é o operador da securitização e está em crise devido a fraudes ligadas ao Banco Master. Ao movimentar esses bilhões e buscar novas formas de captação, o GDF tenta injetar liquidez e estabilizar a saúde financeira do banco, do qual é acionista controlador.
Quem pode comprar as dívidas do Distrito Federal?
Apenas pessoas jurídicas de direito privado ou fundos de investimento que sejam devidamente regulamentados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Pessoas físicas não podem comprar esses créditos diretamente do governo nesta operação.
Onde serão aplicados os recursos arrecadados?
O montante será dividido rigorosamente: 50% será destinado ao regime de previdência social do Distrito Federal para garantir o pagamento de aposentadorias e 50% será usado em investimentos de infraestrutura urbana, priorizando as regiões mais carentes da capital.